A memória não preserva capítulos
longos de um livro. Ela prefere fragmentos, fiapos do tempo. Para que a
literatura tenha um texto impresso, antes, é necessária uma intuição sensorial
igual à luz do sol térmica nos olhos do autor quando se escreve ao ar livre ou
a míope e breve cegueira das noites em claro ao preencher o diário sob a fresta
de uma lamparina fosca.
Se pudéssemos guardar os lapsos de
memória, seria como um Antiquário, do qual cada bugiganga esquecida em uma
empoeirada estante de porão tem uma história por detrás. Faço então da grafia
este recurso à lembrança, cujas imagens sobrepostas e desuniformes formam um
todo.
Neste livro, as crônicas são curtas,
iguais às experiencias vividas e a brevidade da existência, no entanto dizem
muito não só pelo recurso em que foram selecionadas, dentre muitos eventos
passados, mas suas entrelinhas.
SINOPSE:
Dizem não ser possível distinguir o
vivido do imaginado. As imagens em nossa mente trariam iguais sensações. Por
vezes, podemos estar certos de algum evento passado e depois de um tempo,
percebemos que nada daquilo ocorreu, ou não foi igual achávamos ter sido devido
à memória.
O presente livro se faz valer de
tal afirmação; são crônicas do dia-a-dia absorvidas pelo olhar maduro de alguém
que seguiu nas Ciências Sociais, mas jamais abandonou a questão literária.
As memórias presentes estão sob o
signo do delírio e da certeza do vivenciado, por mais que tenham sido escritas
depois de anos dos acontecimentos. Nelas, o leitor terá acesso aos adendos
históricos que enriquecem o texto, diante de um historiador que analisa
trajetórias de indivíduos e personagens da vida real, não só de acontecimentos
extraordinários.
A poética de seus parágrafos
denuncia uma forte humanidade do autor, analisando minuciosamente cada
instante, assim como o pesquisador ao colocar o inseto no microscópio. Não há
uma abissal diferença entre o cientista e o artista, e este livro é prova de
que o conhecimento erudito pode servir às páginas carregadas de anedotas
corriqueiras de nossa vida cotidiana.


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