por
David Vega - O pulsar rítmico de muitos motores e hélices de
helicóptero ainda parecia não ser o som familiar que logo se tornou,
quando um velho catador encostou na carroça que puxava e ergueu os olhos
repentinamente. Lá no alto, num céu quase sem nuvens, duas formações em
V de grandes águias de ferro sobrevoavam a multidão. Ele os contou
cuidadosamente, dois, três, quatro pássaros negros, com sua barriga
cheia de PM´s apontando o cano de uma ponte 50. Fitou-os com ódio,
talvez o mesmo ódio que seus ancestrais sentiram quando, em revoltas do
passado, nobres ricamente vestidos galopavam pelos seus campos. Largou a
carroça e correu para a multidão integrando-se em mais uma coluna
mista, erguida por estudantes, profissionais livres, educadores e
idealistas de toda ordem.
Percepções
como estas poderiam preencher páginas e mais páginas de um livro, que
está sendo escrito nesta epopeia pelo sangue a escorrer nas faces dos
muitos jovens que começam a despertar contra um governo tirano que lhes
rouba aquilo que seria seu maior direito: a perspectiva de um futuro
melhor, na esfera individual e coletiva.
Não
são meras revoltas por vinte centavos a mais, não são meras revoltas
pelo fato dos vereadores no Brasil aumentarem o salário deles próprios
com uma votação interna e coligada, detalhes como o preço do café, que
caiu mais da metade (a safra) e no supermercado ele tem aumentado. Outro
dia o tomate estava R$ 1,50 o quilo e como num passe de mágica subiu
para 5 reais – não meus caros leitores, não é apenas o fato de um
governo e intermediários ditarem as coisas na eterna República do
Cabresto.
Desde
o impeachment do presidente Collor, no início dos 90, não assistíamos
um despertar de consciência coletiva, que muito se deve ao avanço da
informatização, a internet proporciona – por enquanto – um mundo livre,
contato com realidades distintas ao redor do globo, dependendo de como
utilizam a ferramenta, o que faz com que o cidadão ainda nos dê aquele
gostinho de esperança, que ele ainda tenha, mesmo que parcialmente
politizado, uma vocação ao ser político, não meramente o ser social.
Queremos
o espírito religioso, que não se resume a uma meia dúzia de dogmas ou
crenças, este mesmo espírito destinatário foi a chave dos melhores arcos
de nossa História, preenche os vazios de nossas aspirações em um mundo
que projeta esse vazio na cúpula organizacional.
Seriamos
um partido se viéssemos enunciar um programa de soluções concretas.
Tais programas tem a vantagem de que nunca se cumprem. Do contrário,
quando se tem um sentido permanente ante a História e a vida, esse
próprio sentimento nos dá soluções sobre o concreto, como o amor que nos
diz quando devemos esmurrar ou abraçar, sem que um verdadeiro amor
tenha feito um mínimo de programa de abraços e bofetadas.
Creio
que já estão alçadas as bandeiras. Agora vamos defendê-las alegremente,
poeticamente. Porque existem muitos que ante a marcha da revolução
acreditam que para juntar vontades devemos oferecer soluções mais
brandas; acreditam que devemos ocultar toda propaganda ou aquilo que
desperte emoções, enérgicas e extremas. Que grande erro! Os povos sempre
foram movidos por poetas! E ai daquele que não sabe se levantar, diante
da poesia destrutiva, a poesia que PROMETE! A poesia que não
necessariamente chega em forma de versos, mas que permanece no ambiente
contagiante, que estimula o velho catador esperançoso e faz meu coração
pulsar de entusiasmo, ao concluir esse texto.


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