domingo, 16 de junho de 2013

A Maestria Poética da Insurreição

por David Vega - O pulsar rítmico de muitos motores e hélices de helicóptero ainda parecia não ser o som familiar que logo se tornou, quando um velho catador encostou na carroça que puxava e ergueu os olhos repentinamente. Lá no alto, num céu quase sem nuvens, duas formações em V de grandes águias de ferro sobrevoavam a multidão. Ele os contou cuidadosamente, dois, três, quatro pássaros negros, com sua barriga cheia de PM´s apontando o cano de uma ponte 50. Fitou-os com ódio, talvez o mesmo ódio que seus ancestrais sentiram quando, em revoltas do passado, nobres ricamente vestidos galopavam pelos seus campos. Largou a carroça e correu para a multidão integrando-se em mais uma coluna mista, erguida por estudantes, profissionais livres, educadores e idealistas de toda ordem.
Percepções como estas poderiam preencher páginas e mais páginas de um livro, que está sendo escrito nesta epopeia pelo sangue a escorrer nas faces dos muitos jovens que começam a despertar contra um governo tirano que lhes rouba aquilo que seria seu maior direito: a perspectiva de um futuro melhor, na esfera individual e coletiva.

Não são meras revoltas por vinte centavos a mais, não são meras revoltas pelo fato dos vereadores no Brasil aumentarem o salário deles próprios com uma votação interna e coligada, detalhes como o preço do café, que caiu mais da metade (a safra) e no supermercado ele tem aumentado. Outro dia o tomate estava R$ 1,50 o quilo e como num passe de mágica subiu para 5 reais – não meus caros leitores, não é apenas o fato de um governo e intermediários ditarem as coisas na eterna República do Cabresto.

Desde o impeachment do presidente Collor, no início dos 90, não assistíamos um despertar de consciência coletiva, que muito se deve ao avanço da informatização, a internet proporciona – por enquanto – um mundo livre, contato com realidades distintas ao redor do globo, dependendo de como utilizam a ferramenta, o que faz com que o cidadão ainda nos dê aquele gostinho de esperança, que ele ainda tenha, mesmo que parcialmente politizado, uma vocação ao ser político, não meramente o ser social.
Queremos o espírito religioso, que não se resume a uma meia dúzia de dogmas ou crenças, este mesmo espírito destinatário foi a chave dos melhores arcos de nossa História, preenche os vazios de nossas aspirações em um mundo que projeta esse vazio na cúpula organizacional.

Seriamos um partido se viéssemos enunciar um programa de soluções concretas. Tais programas tem a vantagem de que nunca se cumprem. Do contrário, quando se tem um sentido permanente ante a História e a vida, esse próprio sentimento nos dá soluções sobre o concreto, como o amor que nos diz quando devemos esmurrar ou abraçar, sem que um verdadeiro amor tenha feito um mínimo de programa de abraços e bofetadas.

Creio que já estão alçadas as bandeiras. Agora vamos defendê-las alegremente, poeticamente. Porque existem muitos que ante a marcha da revolução acreditam que para juntar vontades devemos oferecer soluções mais brandas; acreditam que devemos ocultar toda propaganda ou aquilo que desperte emoções, enérgicas e extremas. Que grande erro! Os povos sempre foram movidos por poetas! E ai daquele que não sabe se levantar, diante da poesia destrutiva, a poesia que PROMETE! A poesia que não necessariamente chega em forma de versos, mas que permanece no ambiente contagiante, que estimula o velho catador esperançoso e faz meu coração pulsar de entusiasmo, ao concluir esse texto.

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