Observações
filosóficas e antropológicas realizadas
sobre
fragmentos da obra “Maíra”, de Darcy Ribeiro.
por: David Vega.
Os motivos que me
levaram a escolher os temas acerca da espiritualidade e a religião como pano de
fundo da elaboração desse trabalho, talvez sejam os mesmos que tem martelado em
minha mente por um longo período. A diferença entre dois mundos, basicamente o
agrário e o urbano, ou a “barbárie” e a “civis”, nestes, mesmo que alterados e
imersos dentro da cultura ocidental, ainda é possível identificar discrepâncias
quanto à maneira de enxergar a realidade, o divino e o sobrenatural em geral.
O homem na natureza
através do transe provocado por rituais organizados, ou simplesmente no seu
cotidiano, em menor grau de intensidade, estabelece relações entre o mundo
visível e o invisível. Essa função instiga uma alteridade no indivíduo que não
seria apenas de ordem espiritual, mas a capacidade de ver os fenômenos ou
situações não como o agente, mas sim o espectador, causando uma propensão maior
à compreensão daquele objeto ou fato.
As questões que
envolvem o mundo indígena, mesmo que retratadas em forma de romance, conseguem
transmitir uma realidade paralela, feito a multiplicidade do ser que eles
conseguem desenvolver. Para nós imersos dentro de uma religião hierarquizada,
dogmática e de designação de tarefas aos seres do imaginário pode parecer um
campo muito complexo, mas é justamente esse leque plural de divindades que faz
as sociedades nativas alcançarem nosso imaginário, como sendo adoradoras de
seres míticos exóticos, viajantes que podiam transitar entre duas ou mais
realidades, homens que absorveriam a essência obscura e das matas, mas, em
contrapartida, nós pós modernos temos a capacidade de compreender que esse
estilo fundamentado na metamorfose totêmica do ser é que faz de muitos homens
conscientes serem resistentes à razão, a ausência de pensamento, atribuindo personas aos animais e objetos, uma
compreensão de mundo mais democrática que faz dos clãs indígenas sociedades na
via horizontal, de uma harmonia que chega a causar espanto e admiração a nós
ocidentalizados.
A questão da crença
multifacetada, ou “politeísta”, apesar de que diferente da Grécia antiga, onde
por um período a civilização ocidental não adotava um teocentrismo, mesmo com
uma pluralidade de deuses eles poderiam ser considerados mais
institucionalizados como tal, do que na visão indígena.
A cosmologia dos
submetidos aos clãs, em especial os Quatis e as Antas, era de uma abrangência
tal, que permitia os mesmos encontrarem energias espirituais em uma casca de
árvore ou folha, partindo de uma companheira ou até mesmo no próprio indivíduo.
Uma técnica sábia do
índio era fazer a leitura de si próprio, interpretando baseado em mitos (quando
a “explicação racional” dos mesmos não dava conta de trazer uma compreensão
convincente). Está relacionada com os aspectos da vida social, mesmo que
intrínsecos, para a organização tribal do clã.
Essa característica de
visão de mundo acaba por encontrar uma “resistência” quando um indivíduo que
teve parte de sua criação dentro dessa ótica é levado à civilização e moldado à
hierarquia da religião, de uma instituição da fé, que afetará na sua compreensão
sobre o real. Como no caso da passagem do livro “Maíra”, em que Isaías é
enviado a Roma para sua educação, ao regressar era um estranho, uma pessoa à
margem eu seria tão forasteiro em seu local de origem, bem como tinha sido na
Itália, sem pertencer a nenhum lugar, este “cidadão do mundo” tinha uma
dificuldade de se integrar em ambos extremos, um exemplo disso evidente é
quando ele demonstra uma incapacidade na atividade de agricultura promovida
pela tribo, que não se baseava em aparatos técnicos e de monocultura como na
Europa, e ali, ele embora tenha o fenótipo indígena, estava mais fora de órbita
do que os próprios antropólogos brancos que haviam incorporado o estilo
indígena nessa questão.
Ora, por que temos uma
distinção abrupta entre “humanos” e “animais”, a mania de superioridade do
homem por conta da racionalização produz a Civis, que é uma realidade
artificial e mesmo nesse universo artificial, não conseguem por completo se
livrar da natureza, embora se afirme que a cultura altera a natureza, mesmo na
civis é ainda os resquícios da mesma que redige a cultura, nesse movimento de
“vai e vem” .
Devido essas
discrepâncias, que muito confundiam o personagem Isaías, em compensação faziam
com que ele pudesse desenvolver um “olhar de fora” sobre seus dois “eus” mais
fortes, atribuídos devido sua vivência nesses dois mundos, o que deixava-o a
par de ser o protagonista de muitos eventos. Quando se incorpora elementos
iluministas deixamos de ter aquela “essência pura”.
Pude identificar a
questão machista de dominação, por parte dos católicos, O pai tem mais um
orgulho próprio, pessoal, do que dos filhos, ele se realiza através do feito
dos filhos.
quando Isaías se choca
com uma espécie de igualitarismo, embora fossem muito bem divididas as tarefas
na aldeia, entre homens e mulheres, no que diz respeito à sexualidade também.
No mundo ocidental paternalista o representante da família fica por “dividir” a
responsabilidade de culpa ou transferir para a parte mais fraca, que tem menos
voz, sua própria esposa ou no caso de deuses, para a parte supostamente
inexistente.
Os Mairuns possuem a
cosmovisão do meio natural, uma onça, por exemplo, seria um “humano” como
qualquer outro, porém preso dentro daquela carcaça, que agia de tal forma,
violenta e imponente no caso, porque seria sua única alternativa de
sobrevivência, não há um distanciamento ou hierarquização entre homem e animal,
por isso grande parte dos adornos são inspirados ou compostos com partes de
animais.
Hoje a situação do índio
é bem diferente, como pude interpretar através da passagem do próprio Darcy
Ribeiro no “Maíra”:
“Todos
os homens nascem em Jerusalém. Eu também! Padre serei, ministro de Deus da
Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas gente, eu sou? Não, não sou ninguém.
Melhor que seja padre, assim poderei viver quieto e talvez até ajudar o
próximo. Isto é, se o próximo deixar que um índio qualquer o abençoe, o
confesse, o perdoe”
“Do lado oposto, no nascente, está o mundo
devassado de onde nos vêm a invasão, a doença, a brancura. É o lado onde estou
agora, é o lado de onde vou indo para lá, e voltando, ir e vir, sem totalizar a
um extremo.”
Hoje com os valores
modernos e a urbanização, os índios civilizados passam a ser unilaterais e
reproduzem imagens compradas artificiais, mas ainda ficam resquícios da alma
selvagem, da real liberdade, a individual ligada ao arbítrio.
Quando desprezam a
alteridade, que ocorre tanto no abstrato, quanto no próprio físico do sujeito
que tem a natureza como fonte, erradicam uma condição humana e tornam-se pragmáticos,
possuidores de um “eu” eleito de caso pensado ou por motivos de cobrança,
imposição não por livre e espontânea vontade. Se existe a liberdade, talvez
seja esta, a capacidade de tomar formas por livre arbítrio a hora que bem
entender.
Bibliografia
Os Brasileiros.
Teoria do Brasil
Edição nacional:
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1972.
O povo
brasileiro: a formação e o sentido do Brasil
Edição
nacional: Companhia das Letras, São Paulo, 1995.


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