domingo, 14 de julho de 2013

A Cosmovisão dos clãs Mairuns



Observações filosóficas e antropológicas realizadas
sobre fragmentos da obra “Maíra”, de Darcy Ribeiro.

por: David Vega.



    Os motivos que me levaram a escolher os temas acerca da espiritualidade e a religião como pano de fundo da elaboração desse trabalho, talvez sejam os mesmos que tem martelado em minha mente por um longo período. A diferença entre dois mundos, basicamente o agrário e o urbano, ou a “barbárie” e a “civis”, nestes, mesmo que alterados e imersos dentro da cultura ocidental, ainda é possível identificar discrepâncias quanto à maneira de enxergar a realidade, o divino e o sobrenatural em geral.
    O homem na natureza através do transe provocado por rituais organizados, ou simplesmente no seu cotidiano, em menor grau de intensidade, estabelece relações entre o mundo visível e o invisível. Essa função instiga uma alteridade no indivíduo que não seria apenas de ordem espiritual, mas a capacidade de ver os fenômenos ou situações não como o agente, mas sim o espectador, causando uma propensão maior à compreensão daquele objeto ou fato.
    As questões que envolvem o mundo indígena, mesmo que retratadas em forma de romance, conseguem transmitir uma realidade paralela, feito a multiplicidade do ser que eles conseguem desenvolver. Para nós imersos dentro de uma religião hierarquizada, dogmática e de designação de tarefas aos seres do imaginário pode parecer um campo muito complexo, mas é justamente esse leque plural de divindades que faz as sociedades nativas alcançarem nosso imaginário, como sendo adoradoras de seres míticos exóticos, viajantes que podiam transitar entre duas ou mais realidades, homens que absorveriam a essência obscura e das matas, mas, em contrapartida, nós pós modernos temos a capacidade de compreender que esse estilo fundamentado na metamorfose totêmica do ser é que faz de muitos homens conscientes serem resistentes à razão, a ausência de pensamento, atribuindo personas aos animais e objetos, uma compreensão de mundo mais democrática que faz dos clãs indígenas sociedades na via horizontal, de uma harmonia que chega a causar espanto e admiração a nós ocidentalizados.

    A questão da crença multifacetada, ou “politeísta”, apesar de que diferente da Grécia antiga, onde por um período a civilização ocidental não adotava um teocentrismo, mesmo com uma pluralidade de deuses eles poderiam ser considerados mais institucionalizados como tal, do que na visão indígena.
A cosmologia dos submetidos aos clãs, em especial os Quatis e as Antas, era de uma abrangência tal, que permitia os mesmos encontrarem energias espirituais em uma casca de árvore ou folha, partindo de uma companheira ou até mesmo no próprio indivíduo.
    Uma técnica sábia do índio era fazer a leitura de si próprio, interpretando baseado em mitos (quando a “explicação racional” dos mesmos não dava conta de trazer uma compreensão convincente). Está relacionada com os aspectos da vida social, mesmo que intrínsecos, para a organização tribal do clã.
Essa característica de visão de mundo acaba por encontrar uma “resistência” quando um indivíduo que teve parte de sua criação dentro dessa ótica é levado à civilização e moldado à hierarquia da religião, de uma instituição da fé, que afetará na sua compreensão sobre o real. Como no caso da passagem do livro “Maíra”, em que Isaías é enviado a Roma para sua educação, ao regressar era um estranho, uma pessoa à margem eu seria tão forasteiro em seu local de origem, bem como tinha sido na Itália, sem pertencer a nenhum lugar, este “cidadão do mundo” tinha uma dificuldade de se integrar em ambos extremos, um exemplo disso evidente é quando ele demonstra uma incapacidade na atividade de agricultura promovida pela tribo, que não se baseava em aparatos técnicos e de monocultura como na Europa, e ali, ele embora tenha o fenótipo indígena, estava mais fora de órbita do que os próprios antropólogos brancos que haviam incorporado o estilo indígena nessa questão.
Ora, por que temos uma distinção abrupta entre “humanos” e “animais”, a mania de superioridade do homem por conta da racionalização produz a Civis, que é uma realidade artificial e mesmo nesse universo artificial, não conseguem por completo se livrar da natureza, embora se afirme que a cultura altera a natureza, mesmo na civis é ainda os resquícios da mesma que redige a cultura, nesse movimento de “vai e vem” .
    Devido essas discrepâncias, que muito confundiam o personagem Isaías, em compensação faziam com que ele pudesse desenvolver um “olhar de fora” sobre seus dois “eus” mais fortes, atribuídos devido sua vivência nesses dois mundos, o que deixava-o a par de ser o protagonista de muitos eventos. Quando se incorpora elementos iluministas deixamos de ter aquela “essência pura”.
Pude identificar a questão machista de dominação, por parte dos católicos, O pai tem mais um orgulho próprio, pessoal, do que dos filhos, ele se realiza através do feito dos filhos.
quando Isaías se choca com uma espécie de igualitarismo, embora fossem muito bem divididas as tarefas na aldeia, entre homens e mulheres, no que diz respeito à sexualidade também. No mundo ocidental paternalista o representante da família fica por “dividir” a responsabilidade de culpa ou transferir para a parte mais fraca, que tem menos voz, sua própria esposa ou no caso de deuses, para a parte supostamente inexistente.
    Os Mairuns possuem a cosmovisão do meio natural, uma onça, por exemplo, seria um “humano” como qualquer outro, porém preso dentro daquela carcaça, que agia de tal forma, violenta e imponente no caso, porque seria sua única alternativa de sobrevivência, não há um distanciamento ou hierarquização entre homem e animal, por isso grande parte dos adornos são inspirados ou compostos com partes de animais.
Hoje a situação do índio é bem diferente, como pude interpretar através da passagem do próprio Darcy Ribeiro no “Maíra”:

“Todos os homens nascem em Jerusalém. Eu também! Padre serei, ministro de Deus da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas gente, eu sou? Não, não sou ninguém. Melhor que seja padre, assim poderei viver quieto e talvez até ajudar o próximo. Isto é, se o próximo deixar que um índio qualquer o abençoe, o confesse, o perdoe”

     “Do lado oposto, no nascente, está o mundo devassado de onde nos vêm a invasão, a doença, a brancura. É o lado onde estou agora, é o lado de onde vou indo para lá, e voltando, ir e vir, sem totalizar a um extremo.”

    Hoje com os valores modernos e a urbanização, os índios civilizados passam a ser unilaterais e reproduzem imagens compradas artificiais, mas ainda ficam resquícios da alma selvagem, da real liberdade, a individual ligada ao arbítrio.
Quando desprezam a alteridade, que ocorre tanto no abstrato, quanto no próprio físico do sujeito que tem a natureza como fonte, erradicam uma condição humana e tornam-se pragmáticos, possuidores de um “eu” eleito de caso pensado ou por motivos de cobrança, imposição não por livre e espontânea vontade. Se existe a liberdade, talvez seja esta, a capacidade de tomar formas por livre arbítrio a hora que bem entender.

Bibliografia
Os Brasileiros. Teoria do Brasil
Edição nacional: Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1972.
O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil
Edição nacional: Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

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