Por: David Vega
Dentro desse próprio sistema,
tiveram gerações que não presenciaram essa complexidade assustadora, pessoas
que tinham um ofício e passavam para seus filhos, hoje a macroeconomia engole
os pequenos comerciantes, antes as pessoas tinham funções mais específicas que
evitavam descontentamentos tão profundos.
Na minha rua tinha uma barbearia,
pouco movimentada nos meus anos, diferente dos tempos de outrora onde inclusive
celebridades já passaram por ali, as fotos preto e branca emolduradas que ali
havia, das saudosas décadas anteriores, mostravam uma realidade muito distinta
daquela humilde barbearia, como a que presenciei. O dono era um velhinho
italiano da Calábria, que mais batia papo, do que tinha serviço, certa vez me
contou de quando aprendeu o ofício com seu pai ainda na Itália dos anos 50, ele
ensinou dois de seus filhos, e juntos conduziram a barbearia até meados dos
anos 90, o auge do negócio foi mesmo nos anos 60 e 70, hoje, os netos do velho
carcamano não sabem nem barbear a si próprios, quem dirá uma outra pessoa, todos,
não por vontade própria, mas por necessidade, seguiram na onda daqueles jovens
de minha geração, ingressando em carreiras que não eram de suas escolhas, o
único motivo seria para conseguirem bons empregos e poderem ter uma vida “decente”,
estudando Administração, Marketing ou cursos “da moda” como Web Design,
Tecnologia da Informação etc. O velho Sr. Giovanni me contava que teve uma vida
muito boa, chegando a fazer uma pequena fortuna com seu ofício simples de
barbeiro, e reconhecia que os netos não deveriam perder tempo com essa atividade,
pois iriam morrer de fome, em contra partida, ele mesmo afirmava que tinha
concluído apenas o primário, e fazendo costeletas, ele teve uma vida muito mais
farta e feliz, do que os netos teriam terminando a pós-graduação e vestindo
ternos, nunca que conseguiriam atingir o ápice do velho.
- Meu neto mais novo tem 23 anos,
a mãe dele o ajuda pagar as parcelas do seu carrinho, que ele pagará em 15
vezes, converso com ele, me disse que sonha em poder sair de casa, mas não tem
condições, e olha que ele estudou nos Estados Unidos, fala além do inglês, o
espanhol e um pouco do italiano e está cursando o último ano de Comércio
Exterior. São tempos muito difíceis mesmo, sabe meu jovem, quando eu tinha a
idade dele, já tinha comprado meu calhambeque, tinha meu apartamento e estava
noivo, minha esposa Rosa, trabalhava em casa, eu sempre sustentei toda a
família, ela tinha tempo para criar os bambinos, eles tiveram uma mãe muito
presente, foi fundamental a presença materna na criação deles, a gente
conseguia tudo isso sem nunca ter tido algum certificado, apenas cortando
cabelo. Meus netos não conseguem chegar à esquina sem nossa ajuda.
A barbearia do meu amigo Giovanni
fechou suas portas duas semanas antes de eu escrever esse parágrafo, não
somente um pedaço da minha história se foi, como drasticamente mudou toda a
característica do bairro, hoje, se você quer cortar o cabelo deverá ir à
franquia de um moderno salão cuja logo marca é famosa e está espalhada no país
inteiro.
O mesmo ocorreu com a sapataria
do velho galego, a floricultura da dona Elena, e muitos outros estabelecimentos
que aqui estiveram por décadas, o único resistente é a padaria do português que
acabou por oferecer também o serviço de Bar restaurante, pois se ficasse vendendo
pão apenas ela teria sucumbido também.
Todos esses serviços hoje estão
unidos em um só lugar, o imponente Walmart, que vende flores no primeiro andar,
sapatos e roupas no segundo, alimentos diversos no terceiro e eletroeletrônicos
no último. Nunca irei me esquecer, de um dia que fiz compras ali, vi um amigo
de infância, neto do galego que tinha a sapataria, trabalhando de vendedor do
hipermercado, no setor de calçados, o pobre estava rodeado de pares diversos e não
conseguia parar nenhum segundo para respirar, por conta disso não pude
cumprimentá-lo. Que ironia! Seu pai havia sido um dos melhores sapateiros de
toda a região.
Eu ficava imaginando que para
aqueles velhos amigos meus, apesar de terem presenciado guerras, a vida não era
tão insuportável quanto para mim. Se eles não tinham muita vocação para alguma
carreira intelectual, conseguiam ganhar a vida fazendo o mesmo ofício de seus
pais, sorte essa que seus netos jamais irão conhecer.
Literalmente nos vendemos para graduações
voltadas ao mercado, empurramos com a barriga os anos de faculdade visando
apenas a certificação, e parcialmente capacitados somos explorados uma vida
inteira em funções repetitivas que além de não serem satisfatórias, jamais nos
fornecem oportunidade alguma de crescimento. Os cursos superiores da atualidade
não mais são científicos, não nos ensinam caminhar com as próprias pernas, no
primeiro semestre ensinam o básico do básico em teoria, e nos semestres
seguintes fornecem apenas uma meia dúzia de segmentos onde podemos atuar e nos
especializar, fazendo os estudantes não conseguirem enxergar além daquelas
possibilidades, tudo hoje é voltado para a produção. Em um curso de Direito,
por exemplo, apenas menciona-se sua origem e isso nem sequer é cobrado nos
testes, os alunos passam 4 anos analisando as constituições ocidentais
liberais, aprimorando-se nos seus conceitos, mas não conseguem ver além desse
modelo, poucos são os que expandem a mente e evoluem para a análise de alternativas dentro
de nossas especializações, assim então formando profissionais que simpatizam e
defendem outras linhas que foge ao convencional, aqueles que ainda procuram
demonstrar sinais de dominação avançada na área, vivem repetindo frases em
latim, comparando a evolução dos conceitos romanos, da moral religiosa e a
reformulada por Kant e outros, mas são incapazes de ver além disso tudo,
muitos, nem isso sequer são capazes após se formarem, irão por sempre executar
as cláusulas da Constituição e a interpretação será exclusivamente para esta,
como se fosse a única verdade. O mesmo se faz com várias outras carreiras, na Psicologia,
não aprendemos que existiram sociedades muito menos complexas do que a nossa,
onde os indivíduos tinham papéis definidos e funções muito esclarecidas, assim
minimizando e diria ainda, extinguindo a característica do adolescente rebelde,
do homossexualismo, da depressão etc. Atribui-se
tudo ao subconsciente e inconsciente como se eles fossem assim mesmo e pronto, justificando
que temos vontades sexuais enrustidas com nossos próprios genitores, feito o Complexo
de Édipo. Nossa mente é formada do que absorvemos da realidade, quando nomeamos
as coisas e passamos a entender seus significados, nossa conduta, nossos
anseios e valores, todos tem uma origem, todos foram construídos ao longo de
milênios, há uma interação simbólica fazendo-nos tornar quem somos, sobretudo
vinda de três elementos básicos, a sociedade, o nosso habitat e a biologia, atuando
diretamente na nossa psique como um todo, disso nós modificamos o natural e
criamos valores através dos mitos, assim gerando uma moral que irá nos ditar as
regras de conduta dentro de uma determinada sociedade, linearidade de famílias:
patriarcais, matrilineares e outras, tudo isso influencia na maneira de sermos,
as teorias freudianas da psicanálise, das quais são as mais utilizadas pela
maioria desses profissionais com péssima formação, seriam falhas em sociedades
totalmente distintas dos conceitos que a nossa carrega. Muitos profissionais
(não por culpa deles) insistem em tratar os pacientes como se o fato deles
serem de tal forma, não tivesse uma explicação, não apresentam alternativas ao
pensamento comum e eleito convencional, os psicólogos então, em suma maioria,
tornam-se terapeutas que terão clientes constantes, pois estes são frutos de
toda essa complexidade, chega a parecer intencional, uma vez tendo pessoas
problemáticas, não os faltará trabalho, o mesmo acontece com os médicos etc.
Todas as carreiras, hoje, são moldadas pelo
interesse de agregar valores (materiais principalmente), não temos mais teóricos
e cientistas, mas sim executores, que se agarram dentro daquilo julgado “útil”
para o mercado e a sociedade, sem jamais conseguirem compreender alternativas
para estes; é como se um dia eles não tivessem mais essa característica que tem
hoje, mudassem drasticamente, não saberíamos mais como agir, seriamos
impotentes diante de revoluções, estamos enraizados e crentes de que esses
modelos convencionais são os únicos que funcionam e que sem eles deixaríamos de
existir.
Pois bem, o planeta Terra tem
aproximadamente cinco bilhões de anos, a existência do homo sapiens, cerca de
um milhão de anos, as civilizações, alguns milênios, a Revolução Gloriosa
inglesa, três séculos, a Revolução Industrial pouco mais de dois séculos e o
capitalismo pós-moderno com as características atuais seis décadas apenas! Ou
seja, em algumas centenas de anos nós transformamos a sociedade de tal forma,
criando necessidades irrelevantes e agregando status sem fundamentos, de uma
tal forma que ficamos presos a esse modelo, rejeitando outras características
de sociedades que existiram por milhares de gerações. Graças a tais eventos
como o Colonialismo que acabou por criar a Pax Britânica nos últimos 200 anos,
nós convertemos e cada vez mais padronizamos os povos e suas características dentro
desse sistema que cresce em uma escala astronômica, sem jamais conseguirmos acompanhar,
aprimorando todos os tipos de problemas internos e externos aos indivíduos,
estes sem espaço ou função dentro dele, como eu.
Cidades crescendo na vertical,
viadutos que passam por entre torres que alcançam o céu, tudo parece ser feito
para confundir, promovendo e louvando a incoerência. Podemos considerar isso um progresso da humanidade?
Somos a geração do 6x1 .... E
identificando esses fatores, cada vez mais eu estava certo de que minha função
seria atuar no entretenimento, porém a partir desse momento, eu percebi que
seria interessante criar histórias e personagens que a mesmo tempo que faziam
os leitores ou espectadores saírem da realidade, pudessem também transmitir
conceitos e pontos de reflexão filosófica possíveis de despertar
questionamentos e discussões entre eles, mesmo que isso se manifestasse
estritamente no interno de cada um, fazendo então uma conexão entre o
conceitual sobre o real e a diversão.
Final: Encontrei o meu caminho
nas letras e no universo acadêmico lecionando para meus alunos sobre todas
essas questões, foi a maneira que descobri para me rebelar sem causar danos
concretos à minha vida. Se insistimos em lutar contra a corrente com revoltas
físicas e atitudes que se mostram inúteis frente a essa complexidade atual, por
que não fazer desse descontentamento o meu trabalho?
Como meu velho sempre se referiu
a mim: “esse garoto vive no mundo da lua”, ao invés de tentar abandonar essa
minha característica, sendo ela algo muito presente e impossível de eu me
livrar, tendo falhado todas as vezes em que tentei me entregar para o
convencional, passei então a utilizar os meus questionamentos de sempre como
uma forma de ganha pão dentro desse sistema, é uma maneira de gerar receita e
sobreviver, porém sem deixar de ser quem eu sou.



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