sábado, 24 de agosto de 2013

A Complexidade da realidade pós moderna e os intermediários



Por: David Vega


    Dentro desse próprio sistema, tiveram gerações que não presenciaram essa complexidade assustadora, pessoas que tinham um ofício e passavam para seus filhos, hoje a macroeconomia engole os pequenos comerciantes, antes as pessoas tinham funções mais específicas que evitavam descontentamentos tão profundos.
    Na minha rua tinha uma barbearia, pouco movimentada nos meus anos, diferente dos tempos de outrora onde inclusive celebridades já passaram por ali, as fotos preto e branca emolduradas que ali havia, das saudosas décadas anteriores, mostravam uma realidade muito distinta daquela humilde barbearia, como a que presenciei. O dono era um velhinho italiano da Calábria, que mais batia papo, do que tinha serviço, certa vez me contou de quando aprendeu o ofício com seu pai ainda na Itália dos anos 50, ele ensinou dois de seus filhos, e juntos conduziram a barbearia até meados dos anos 90, o auge do negócio foi mesmo nos anos 60 e 70, hoje, os netos do velho carcamano não sabem nem barbear a si próprios, quem dirá uma outra pessoa, todos, não por vontade própria, mas por necessidade, seguiram na onda daqueles jovens de minha geração, ingressando em carreiras que não eram de suas escolhas, o único motivo seria para conseguirem bons empregos e poderem ter uma vida “decente”, estudando Administração, Marketing ou cursos “da moda” como Web Design, Tecnologia da Informação etc. O velho Sr. Giovanni me contava que teve uma vida muito boa, chegando a fazer uma pequena fortuna com seu ofício simples de barbeiro, e reconhecia que os netos não deveriam perder tempo com essa atividade, pois iriam morrer de fome, em contra partida, ele mesmo afirmava que tinha concluído apenas o primário, e fazendo costeletas, ele teve uma vida muito mais farta e feliz, do que os netos teriam terminando a pós-graduação e vestindo ternos, nunca que conseguiriam atingir o ápice do velho.

-  Meu neto mais novo tem 23 anos, a mãe dele o ajuda pagar as parcelas do seu carrinho, que ele pagará em 15 vezes, converso com ele, me disse que sonha em poder sair de casa, mas não tem condições, e olha que ele estudou nos Estados Unidos, fala além do inglês, o espanhol e um pouco do italiano e está cursando o último ano de Comércio Exterior. São tempos muito difíceis mesmo, sabe meu jovem, quando eu tinha a idade dele, já tinha comprado meu calhambeque, tinha meu apartamento e estava noivo, minha esposa Rosa, trabalhava em casa, eu sempre sustentei toda a família, ela tinha tempo para criar os bambinos, eles tiveram uma mãe muito presente, foi fundamental a presença materna na criação deles, a gente conseguia tudo isso sem nunca ter tido algum certificado, apenas cortando cabelo. Meus netos não conseguem chegar à esquina sem nossa ajuda.
    A barbearia do meu amigo Giovanni fechou suas portas duas semanas antes de eu escrever esse parágrafo, não somente um pedaço da minha história se foi, como drasticamente mudou toda a característica do bairro, hoje, se você quer cortar o cabelo deverá ir à franquia de um moderno salão cuja logo marca é famosa e está espalhada no país inteiro.
    O mesmo ocorreu com a sapataria do velho galego, a floricultura da dona Elena, e muitos outros estabelecimentos que aqui estiveram por décadas, o único resistente é a padaria do português que acabou por oferecer também o serviço de Bar restaurante, pois se ficasse vendendo pão apenas ela teria sucumbido também.
    Todos esses serviços hoje estão unidos em um só lugar, o imponente Walmart, que vende flores no primeiro andar, sapatos e roupas no segundo, alimentos diversos no terceiro e eletroeletrônicos no último. Nunca irei me esquecer, de um dia que fiz compras ali, vi um amigo de infância, neto do galego que tinha a sapataria, trabalhando de vendedor do hipermercado, no setor de calçados, o pobre estava rodeado de pares diversos e não conseguia parar nenhum segundo para respirar, por conta disso não pude cumprimentá-lo. Que ironia! Seu pai havia sido um dos melhores sapateiros de toda a região.
    Eu ficava imaginando que para aqueles velhos amigos meus, apesar de terem presenciado guerras, a vida não era tão insuportável quanto para mim. Se eles não tinham muita vocação para alguma carreira intelectual, conseguiam ganhar a vida fazendo o mesmo ofício de seus pais, sorte essa que seus netos jamais irão conhecer. 
    Literalmente nos vendemos para graduações voltadas ao mercado, empurramos com a barriga os anos de faculdade visando apenas a certificação, e parcialmente capacitados somos explorados uma vida inteira em funções repetitivas que além de não serem satisfatórias, jamais nos fornecem oportunidade alguma de crescimento. Os cursos superiores da atualidade não mais são científicos, não nos ensinam caminhar com as próprias pernas, no primeiro semestre ensinam o básico do básico em teoria, e nos semestres seguintes fornecem apenas uma meia dúzia de segmentos onde podemos atuar e nos especializar, fazendo os estudantes não conseguirem enxergar além daquelas possibilidades, tudo hoje é voltado para a produção. Em um curso de Direito, por exemplo, apenas menciona-se sua origem e isso nem sequer é cobrado nos testes, os alunos passam 4 anos analisando as constituições ocidentais liberais, aprimorando-se nos seus conceitos, mas não conseguem ver além desse modelo, poucos são os que expandem a mente e  evoluem para a análise de alternativas dentro de nossas especializações, assim então formando profissionais que simpatizam e defendem outras linhas que foge ao convencional, aqueles que ainda procuram demonstrar sinais de dominação avançada na área, vivem repetindo frases em latim, comparando a evolução dos conceitos romanos, da moral religiosa e a reformulada por Kant e outros, mas são incapazes de ver além disso tudo, muitos, nem isso sequer são capazes após se formarem, irão por sempre executar as cláusulas da Constituição e a interpretação será exclusivamente para esta, como se fosse a única verdade. O mesmo se faz com várias outras carreiras, na Psicologia, não aprendemos que existiram sociedades muito menos complexas do que a nossa, onde os indivíduos tinham papéis definidos e funções muito esclarecidas, assim minimizando e diria ainda, extinguindo a característica do adolescente rebelde, do homossexualismo, da depressão etc.  Atribui-se tudo ao subconsciente e inconsciente como se eles fossem assim mesmo e pronto, justificando que temos vontades sexuais enrustidas com nossos próprios genitores, feito o Complexo de Édipo. Nossa mente é formada do que absorvemos da realidade, quando nomeamos as coisas e passamos a entender seus significados, nossa conduta, nossos anseios e valores, todos tem uma origem, todos foram construídos ao longo de milênios, há uma interação simbólica fazendo-nos tornar quem somos, sobretudo vinda de três elementos básicos, a sociedade, o nosso habitat e a biologia, atuando diretamente na nossa psique como um todo, disso nós modificamos o natural e criamos valores através dos mitos, assim gerando uma moral que irá nos ditar as regras de conduta dentro de uma determinada sociedade, linearidade de famílias: patriarcais, matrilineares e outras, tudo isso influencia na maneira de sermos, as teorias freudianas da psicanálise, das quais são as mais utilizadas pela maioria desses profissionais com péssima formação, seriam falhas em sociedades totalmente distintas dos conceitos que a nossa carrega. Muitos profissionais (não por culpa deles) insistem em tratar os pacientes como se o fato deles serem de tal forma, não tivesse uma explicação, não apresentam alternativas ao pensamento comum e eleito convencional, os psicólogos então, em suma maioria, tornam-se terapeutas que terão clientes constantes, pois estes são frutos de toda essa complexidade, chega a parecer intencional, uma vez tendo pessoas problemáticas, não os faltará trabalho, o mesmo acontece com os médicos etc.
     Todas as carreiras, hoje, são moldadas pelo interesse de agregar valores (materiais principalmente), não temos mais teóricos e cientistas, mas sim executores, que se agarram dentro daquilo julgado “útil” para o mercado e a sociedade, sem jamais conseguirem compreender alternativas para estes; é como se um dia eles não tivessem mais essa característica que tem hoje, mudassem drasticamente, não saberíamos mais como agir, seriamos impotentes diante de revoluções, estamos enraizados e crentes de que esses modelos convencionais são os únicos que funcionam e que sem eles deixaríamos de existir.
    Pois bem, o planeta Terra tem aproximadamente cinco bilhões de anos, a existência do homo sapiens, cerca de um milhão de anos, as civilizações, alguns milênios, a Revolução Gloriosa inglesa, três séculos, a Revolução Industrial pouco mais de dois séculos e o capitalismo pós-moderno com as características atuais seis décadas apenas! Ou seja, em algumas centenas de anos nós transformamos a sociedade de tal forma, criando necessidades irrelevantes e agregando status sem fundamentos, de uma tal forma que ficamos presos a esse modelo, rejeitando outras características de sociedades que existiram por milhares de gerações. Graças a tais eventos como o Colonialismo que acabou por criar a Pax Britânica nos últimos 200 anos, nós convertemos e cada vez mais padronizamos os povos e suas características dentro desse sistema que cresce em uma escala astronômica, sem jamais conseguirmos acompanhar, aprimorando todos os tipos de problemas internos e externos aos indivíduos, estes sem espaço ou função dentro dele, como eu.


    Cidades crescendo na vertical, viadutos que passam por entre torres que alcançam o céu, tudo parece ser feito para confundir, promovendo e louvando a incoerência. Podemos considerar isso um progresso da humanidade?
Somos a geração do 6x1 .... E identificando esses fatores, cada vez mais eu estava certo de que minha função seria atuar no entretenimento, porém a partir desse momento, eu percebi que seria interessante criar histórias e personagens que a mesmo tempo que faziam os leitores ou espectadores saírem da realidade, pudessem também transmitir conceitos e pontos de reflexão filosófica possíveis de despertar questionamentos e discussões entre eles, mesmo que isso se manifestasse estritamente no interno de cada um, fazendo então uma conexão entre o conceitual sobre o real e a diversão.

    Final: Encontrei o meu caminho nas letras e no universo acadêmico lecionando para meus alunos sobre todas essas questões, foi a maneira que descobri para me rebelar sem causar danos concretos à minha vida. Se insistimos em lutar contra a corrente com revoltas físicas e atitudes que se mostram inúteis frente a essa complexidade atual, por que não fazer desse descontentamento o meu trabalho?
Como meu velho sempre se referiu a mim: “esse garoto vive no mundo da lua”, ao invés de tentar abandonar essa minha característica, sendo ela algo muito presente e impossível de eu me livrar, tendo falhado todas as vezes em que tentei me entregar para o convencional, passei então a utilizar os meus questionamentos de sempre como uma forma de ganha pão dentro desse sistema, é uma maneira de gerar receita e sobreviver, porém sem deixar de ser quem eu sou.

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