É mais do que sabido,
hoje, que o mundo multipolar apresenta um terreno onde contradições políticas
emergem no seio de uma sociedade em rede, interligada, com uma total fluidez e
flexibilização de instâncias que antes eram exclusivas de um programa político
partidário, aqui e acolá, que perderam o sentido após a queda do Muro de Berlim
em 1989. A labelização “esquerda” ou “direita” começa a se desintegrar e fazer
emergir uniões na pós modernidade, veja o exemplo da Inglaterra, onde os whigs
(liberais) e os Tories (conservadores) se uniram acabando com a clássica
polarização ainda na época mesmo de Mosley, quando surge o Partido Trabalhista
como verdadeira oposição, mas que na prática, se vê aliado dos liberais em
muitas pautas (o que se intensifica com a Dama de Ferro, surgindo o binômio
conservadores-trabalhistas). Com os crimes do stalinismo vindos à tona, no
final da década de 1950, os diversos PCs mundiais tiveram rachas dando um
protagonismo aos moderados que se mantinham aliados à URSS e seu revisionismo
na cúpula do partido, foi preciso um grande esforço para convencer militantes e
líderes ortodoxos que insistiam em não fazer uma auto-crítica de uma política
falida que foi varrida aos rincões da Ásia e nas novas repúblicas africanas
independentistas.
O stalinismo acabou,
suas vertentes ainda existentes em poucas siglas no nosso país, não representam
o esforço do antigo PCB (mesmo após a criação do PCdoB, com a linha maoísta e
albanesa) em se aliar ao Movimento Democrático (MDB) e lutar por democracia nas
entranhas da ditadura, enquanto seu irmão mais distante optou pela luta armada.
Em memória de figuras como Astrojildo Pereira e os anarquistas das primeiras
greves operárias do país, aparece a necessidade de uma aliança através da
moderação e o exercício da democracia. Para as lideranças de mentes abertas, em
1992, por exemplo, foi a demonstração da política da prudência, quando as
bandeiras exigiam união e repensar o socialismo para o século XXI que se
aproximava. Questões como a revisão do nosso sistema, defendido por muitos
dentro do partido, um parlamentarismo e o municipalismo frente à centralização
forçada, uma terceira via que se apresente com aquilo que tem melhor na
esquerda e o realpolitik, um pragmatismo dos centristas liberais, faz destas
instancias prerrogativas necessárias para uma atualização no modus operandi da
política eficaz contemporânea.
Empolgado, como todo
jovem que bebeu de utopias promissoras por um tempo, é cativante ler o histórico
do progressismo democrático, dos tempos de PCB e a difícil tarefa de se
organizar na ilegalidade como sempre estiveram, pensar que o
anarco-sindicalismo permeou os corações e mentes dos precursores que viria a
desaguar nas diversas siglas da Social Democracia, que propõem uma nova
concepção de socialismo, mais moderna, alicerçada em lutas nacionais e tendente
ao universalismo, beirando um cosmopolitismo humanista que em muito nos lembra
os federalistas da Revolução de 1776 e a tentativa da fundação de uma nova
república, nos moldes romanos, como insistia Darcy Ribeiro, o Brasil, essa
gente morena, seria um novo império tropical que teria a tarefa de inventar (ou
reinventar) as nossas tradições e cosmologias. A política não pode se resumir
às questões práticas apenas, é preciso bebermos de idealismos que trouxeram às
pessoas de um tempo, um destino manifesto, uma unidade de destino. O vazio de
meros posicionamentos em uma mesa precisa ser preenchido por debates calorosos
feito uma nova Ágora grega, da antiga Pólis, e a internet em muito cumpre esse
papel. Humanismo, radicalismo democrático e Social Democracia. Deixar para a
posteridade registros de ações sociológicas, político-filosóficas, que fazem do
movimento mais que uma sigla.


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